A nostalgia do Pinball

     Atenção adolescentes que se acham os maiorais donos do mundo, só porque acabaram de perder a virgindade e tomaram uma caipi-fruta numa merda duma micareta ou no show do David Guetta, longe dos olhos dos pais!

     Hoje em dia é muito fácil se divertir... Basta deitar no sofá c/ as pernas p/ cima, sintonizar a tv a cabo num dos trocentos canais do pacote que seus pais pagam, ou jogar um jogo do Pokemon num videogame de última geração que vocês ganharam de aniversário porque tiraram nota boa na escola (como se isso não fosse obrigação de vocês). Vida "dura" essa que vocês levam...


     Houve uma época mágica em que p/ se divertir, a gente tinha que ir p/ rua escondidos, correr riscos, frequentando muitas vezes os famigerados "fliperamas" da esquina. "Antros" da perdição, mal vistos pelos nossos pais, que achavam que lá só dava marginal e vagabundo.


     E às vezes nossos pais até que estavam certos mesmo, pois nesses points do submundo, só se via gente matando aula (eu era um) e desocupados de plantão. Mas era lá que eu na minha infância/adolescência, inocentemente me divertia p/ valer, esquecia da vida e não via o tempo passar. Era lá que gastávamos os poucos trocados que a gente tinha... Ía tudo embora nas fichas! E havia uma grande disputa p/ botar fichas quando acabava o jogo. Também ficava todo mundo em volta das máquinas olhando, tanto p/ secar quem estava jogando, quanto p/ admirar os mais fodas!


     E quando a gente não tinha mais dinheiro p/ comprar as fichas? O jeito então era falsificar, fazendo um molde bilateral de Durepox untado c/ vaselina, à partir de uma ficha original. A matéria prima era o chumbo, que tem temperatura de fusão baixa, e portanto, fácil de se "trabalhar". A gente roubava o chumbo do balanceamento das rodas dos carros nas ruas, e derretia numa concha de feijão usada, propriamente modificada p/ tal finalidade. E então o chumbo quente era finalmente derramado na fôrma, c/ bastante cuidado. Depois de confeccionadas as fichas, bastava dar acabamento c/ uma lima fina, e passar manteiga de cacau nelas p/ entrarem s/ agarrar na abertura da máquina... Era só alegria! Mas claro, os franguinhos de hoje da turminha "dente de leite", jamais saberão a emoção disso.


     Num período compreendido entre o pong (primeiro jogo eletrônico) e o console Atari, o Brasil foi inundado de fliperamas, estabelecimentos que tinham como entretenimento, as máquinas de pinball. Pinball p/ quem ainda não sabe do que eu estou falando até agora, são aquelas mesas eletrônicas c/ uma bolinha que você tem que rebater c/ as "palhetas" ou "flipers" (daí o nome "fliperama"), e assim, marcando pontos que são então exibidos num placar, chamado de "backglass".


As primeiras máquinas de pinball chegaram no Brasil por meio de importação direta do exterior, por um empresário do setor hoteleiro de Poços de Caldas (MG), em 1940. Em 1946 o Presidente Dutra proibiu o jogo, e consequentemente a operação destas máquinas, provavelmente por confundí-las c/ as máquinas de jogos de azar, como caça-níqueis. Mas como se faz vista grossa p/ tudo no Brasil (assim como é hoje c/ o jogo do bicho), o negócio das máquinas de pinball continuou crescendo c/ força total, mesmo após o embargo, graças à uma liminar judicial contra o DDP (Departamento de Diversões Públicas). Em 1975 o DDP foi extinto, e finalmente o pinball ficou liberado!


     Em 1969, empresários de São Paulo que atuavam basicamente no setor de bilhares, iniciaram a importação de pinballs usados dos Estados Unidos de forma independente. Em 1970, observando que seria um ótimo negócio, o argentino Tadeo Roman vendeu a sua participação em um hotel, e criou uma pequena fábrica chamada "Diverama" na rua Guaianases, estrategicamente próxima à região da rua Santa Efigênia, centro antigo de São Paulo.


     Raramente as máquinas chegavam no Brasil montadas, por causa do tamanho e fragilidade das mesmas. O mais comum, era elas chegarem desmontadas (o conjunto completo que compunha uma mesa chamava-se "rack"... componentes eletrônicos, playfield, blackglass e etc...) e posteriormente serem montadas no Brasil (prática conhecida como CKD).


     Em 1971 a "Taito do Brasil" entrou no mercado, inicialmente importando máquinas e comprando empresas concorrentes, e posteriormente se instalando numa enorme fábrica no bairro de Santo Amaro (SP), c/ aproximadamente 10.000 metros quadrados. A Taito do Brasil era uma filial da Taito Japan, cujo proprietário era um russo-judeu chamado Michael Kogan. Michael vivia exilado na China, em uma região controlada por japoneses. Ele foi p/ Tóquio, onde começou seu negócio comprando 5 máquinas de fliperama, e aí nasceu a Taito Corp (Japão). Nesta época, já existia inclusive a Segasa (ou SEGA, que mais tarde foi vendida p/ a própria Taito).


     Lembro que foi mais ou menos nessa época, que eu fazia meu 2º grau técnico em eletrônica (preparando terreno p/ uma faculdade de engenharia eletrônica que viria em seguida), e fui bater na porta da filial da Taito em Belo Horizonte (MG), pedir emprego... Entreguei currículo, fiz entrevista e infelizmente, nunca fui chamado. Este é um dos traumas que carrego... Mas enfim...


     O elevado custo de importação na época, por ser classificado como um produto supérfluo, foi tornando economicamente inviável a importação de máquinas, e em 1976, como um golpe de misericórdia, foi proibida a importação de máquinas no Brasil, como uma lei protecionista de reserva de mercado nacional. Isso levou a Taito a primeiramente contrabandear as máquinas de fora, peça por peça, separadamente, e depois remontá-las no Brasil. Mas como o risco era muito grande, e poderia também manchar o nome a empresa, a Taito passou a produzir máquinas inteiramente no Brasil, driblando assim estes entraves (econômico e legal). Ela copiou descaradamente várias mesas estrangeiras que faziam sucesso, principalmente da Williams e da Bally, e também criou outras mesas de autoria própria.


     A LTD, sediada em Campinas (SP), também produzia principalmente réplicas das máquinas americanas Williams, Bally e Gottlieb, desde os anos 70. E o projeto da parte eletrônica também era próprio, usando um microprocessador Motorola 6802 nas primeiras máquinas (como na Space Poker, cópia da Williams Alien Poker) e um 6803 nas últimas máquinas, de meados dos anos 80 (como na Pac Man, cópia da Bally Pac Man, e Haunted Hotel, cópia da Gottlieb Haunted House). O curioso é que, como ambas empresas copiavam modelos dos mesmos fabricantes estrangeiros, surgiram cópias dos mesmos modelos, feitos pela Taito e também pela LTD, como a clássica Bally Xenon, que serviu de inspiração p/ a Taito Zarza e também p/ a LTD Zephy.


     Nos anos 80, existiam ainda mais 3 fábricas, c/ uma produção consideravelmente menor... Fliperbol, Rowamet e Diverama (já citada acima). Todas sediadas no estado de SP.


     Mas o primeiro projeto da Taito foi um pinball eletrônico fortemente inspirado num fabricante espanhol chamado "Playmatic", e que usava tecnologia TTL, isto é, embora digital, não utilizava microprocessador. Este sistema apresentou vários inconvenientes técnicos (dificuldade de manutenção em campo, dificuldade de treinar uma rede enorme de equipes de manutenção, e o pior problema, centelhas elétricas fortes, próximas à porta da máquina, faziam a mesma conceder créditos gratuitos, o que representava uma alta perda em arrecadação. A máquina em questão se chamava "Check Mate".


     No final dos anos 70, um novo projeto desenvolvido no Brasil, colocou as máquinas da Taito no mesmo nível dos fabricantes americanos do ponto de vista de hardware e software. Este sistema usava um microprocessador 8080 da Intel, e apresentava vários recursos e facilidades muito avançadas p/ a época, como o levantamento estatístico de dados (tempo médio de jogo, tempo total de horas que a máquina está ligada, quantas vezes a máquina foi desligada, etc...). Até o final das atividades da Taito, este sistema foi largamente utilizado, embora um novo projeto, usando o microprocessador Z80, chegou a ser implantado nas últimas máquinas da linha de produção. Os avanços principais na parte eletrônica, praticamente se concentraram na placa de som, que no início sequer existia, e nos modelos mais sofisticados, usava um microprocessador Motorola 6800, sintetizador de voz Votrax SC-01, e dois geradores de som GI modelo AY-3-8910. As vozes das máquinas falantes, eram produzidas c/ material importado, sendo que eram utilizadas sílabas do Inglês p/ formar palavras e frases em Português, razão pela qual todas as máquinas que falam produzidas pela Taito, possuem forte sotaque, como se fosse um gringo tentando pronunciar o Português.


     Michael Kogan morreu na década de 80, sendo que a Taito Corp foi "herdada" pelos funcionários japoneses. Em 1985, a Taito do Brasil encerrou suas atividades. Não houve propriamente uma falência da Taito, no sentido jurídico do termo, pois os compromissos financeiros foram honrados, tendo a empresa simplesmente fechado e encerrado operações no Brasil.


     C/ a chegada das máquinas de jogos eletrônicos nos fliperamas brasileiros, em que eram utilizados tubos de tv p/ exibir as imagens (jogos de corrida, ação, aventura e principalmente de luta), as mesas de pinball, que eram eletro-mecânicas, foram gradativamente perdendo espaço. Em 2000, houve um declínio vertiginoso do pinball no Brasil, principalmente por conta dos consoles de video game, e as mesas então praticamente sumiram dos fliperamas e do mercado formal. A reputação dos fliperamas (outrora ruim), aos poucos foi melhorando, e eles saíram das esquinas mal frequentadas, invadindo os shopping centers e endereços mais nobres, c/ suas máquinas utilizando cartão magnético no lugar de fichas, dando um ar mais "chik".


     Hoje, mesmo que c/ menos glamour, as máquinas de pinball ainda existem, e têm seus adeptos. Como não são mais fabricadas no Brasil (somente no exterior, e ninguém faz mais a importação), não existem mais modelos novos no país, só modelos usados. E acabaram virando relíquia de colecionador. Alguns modelos são comercializadas a preços absurdos, podendo chegar a até 20 mil Reais!


     As mesas que eu mais gostava de jogar eram a Shark, Vortex, e a Cavaleiro Negro (foi a primeira máquina da Taito a ter dois andares e a falar... "Eu sou o Cavaleiro Negro à procura de um desafio", "Bola presa", "Obrigado", "É, michou"...). E seguramente, afirmo que se eu tenho um sonho de consumo na vida, é c/ certeza possuir uma dessas 3 máquinas em casa! Claro, cheguei a jogar muito também os jogos eletrônicos de gabinete, manete e tela, e na verdade, muitos deles nada mais eram que gabinetes disfarçados c/ consoles Atari embutidos... Mas dos jogos originais (não esses de Atari disfarçado), os que me marcaram foram o Fantastic (o nome original gringo era Galaga), 1942, Ghost'n Goblins, QIX, Space Invaders, Rally X, Tarzan, Moon Patrol e Zaxxon. E até hoje eu jogo de vez em quando, no PC, através de um emulador estilo MAME. Já as máquinas de pinball, eu também jogo, c/ as mesas emuladas no PC através de emuladores como o Visual Pinball e Future Pinball. Nada que se compare a jogar numa máquina de pinball de verdade, claro, mas dá p/ saciar um pouco da saudade... Na Internet inclusive, já ví pessoas vendendo máquinas de pinball montadas num gabinete que é cópia fiel do original, mas o "miolo" é todo digital, feito c/ um PC e um emulador instalado, c/ tv de led full hd de 52 polegadas, e até mesmo "force feedback" nos flipers. Muito legal e bem feito, mas definitivamente, não é a mesma coisa... O preço também não compensa (cerca de 6 mil Reais).


ALGUMAS MESAS TAITO COPIADAS DE ORIGINAIS ESTRANGEIRAS

NOME NO BRASIL x NOME ORIGINAL
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Cavaleiro Negro - Black Knight
Cosmic - Galaxy
Drakor - Gorgar
Fire Action - Fire Power
Fire Action de Luxe - Fire Power 2
Gemini 2000 - Centaur
Hawkman - Fathom
Lady Luck - Mata Hari
Oba-Oba Sargentelli - Playboy
Rally - Skateball
SureShot - Eightball
Titan - Barracora
Vortex - Blackout
Winbledon - Volley
Zarza - Xenon



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